Guia 20/2019: Produtos Tópicos e Transdérmicos na Prática

Produtos tópicos e transdérmicos possuem particularidades que os diferenciam significativamente de outras formas farmacêuticas. Propriedades físico-químicas como tamanho de partícula, coeficiente de partição e comportamento reológico influenciam diretamente a liberação do fármaco, a permeação cutânea e, consequentemente, a qualidade e a eficácia do produto final.

Para orientar o setor farmacêutico sobre esses requisitos, a Anvisa publicou o Guia nº 20/2019, versão 2, vigente a partir de 10/02/2021. O documento compila os requisitos mínimos de tecnologia farmacêutica para medicamentos tópicos e transdérmicos, novos, genéricos e similares, abrangendo desenvolvimento, controle de qualidade, estudos de estabilidade e equivalência farmacêutica.

Neste artigo, vamos explicar de forma prática cada bloco do Guia 20/2019: composição, processo produtivo, ensaios de qualidade e análise de desempenho in vitro. Você vai entender exatamente o que a Anvisa espera da sua documentação e como evitar os erros mais comuns no atendimento a esses requisitos.


O que é o Guia 20/2019 e por que ele importa

O Guia 20/2019 da Anvisa é um instrumento regulatório de caráter recomendatório que expressa o posicionamento da Agência sobre as melhores práticas para produtos tópicos e transdérmicos. Embora não seja normativo nem vinculante, ele serve como referência técnica central para o setor, alinhando as práticas regulatórias brasileiras com padrões internacionais como FDA, EMA e OECD.

O guia foi elaborado porque não existia no ordenamento sanitário brasileiro uma regulação detalhada sobre os critérios de qualidade aplicáveis a esses medicamentos. As particularidades dos produtos semissólidos (cremes, géis, pomadas, pastas) e dos adesivos transdérmicos exigem ensaios específicos que vão além dos testes convencionais aplicados a comprimidos ou cápsulas.

Por que você deveria se importar? Porque a documentação submetida à Anvisa precisa demonstrar que o produto atende aos requisitos de qualidade ao longo de todo o ciclo de vida do desenvolvimento ao controle de mudanças pós-registro. O guia define o que a Agência considera importante enough para compor essa documentação, incluindo:

  • Informações gerais do produto (forma farmacêutica, local de ação, estado físico do IFA, características de liberação e permeação)
  • Composição e justificativas de formulação
  • Descrição do processo produtivo e seus pontos críticos
  • Ensaios universais e específicos de qualidade
  • Análise de desempenho in vitro (liberação e permeação)

Para medicamentos genéricos e similares, o guia traz exigências adicionais: a composição do produto cópia deve refletir proximidade qualitativa, quantitativa e microestrutural com o medicamento de referência, o que impacta diretamente as estratégias de desenvolvimento e a comprovação de intercambialidade.


Composição e processo produtivo: os pilares da qualidade

Composição: o que documentar

O desenvolvimento de formulações tópicas e transdérmicas precisa ser direcionado para favorecer a liberação e a permeação eficiente do fármaco na pele. Segundo o guia, a documentação deve conter:

  • Seleção dos insumos com justificativa para cada escolha
  • Interação entre os componentes da formulação e entre estes e o material de embalagem
  • Concentração de cada insumo e sua função na formulação
  • Para adesivos transdérmicos: descrição do sistema de liberação, estrutura do produto, composição e função de cada camada

Para genéricos e similares, é necessário apresentar avaliação comparativa dos excipientes entre o medicamento cópia e o de referência, considerando funções, quantidades, arranjos estruturais e desempenho na formulação. No caso de adesivos transdérmicos, ainda são exigidas comparações de concentração do fármaco no adesivo, taxa de liberação por área, quantidade total absorvida por administração e quantidade residual de fármaco após o uso.

Processo produtivo: identificando pontos críticos

As operações unitárias do processo produtivo podem influenciar diretamente as características do produto acabado. O guia alerta para não conformidades frequentes associadas à manufatura:

  • Instabilidade química e física do fármaco e componentes
  • Ausência de homogeneidade do produto
  • Propriedades reológicas indesejáveis
  • Tamanho de partículas/gotículas em desacordo
  • Desempenho in vitro insatisfatório
  • Contaminação microbiológica

A documentação deve incluir a descrição do processo produtivo com esclarecimentos sobre cada operação unitária, os pontos críticos e sua relação com os atributos de qualidade, os controles em processo realizados e os parâmetros críticos para o escalonamento dos lotes.


Ensaios de qualidade: o que a Anvisa espera

Ensaios universais (aplicáveis a todos os produtos)

O guia define quatro ensaios universais obrigatórios:

  1. Descrição/Aparência : deve detectar alterações visuais como mudança de cor, separação de fases, sinérese, cristalização e migração adesiva (cold flow)
  2. Identificação : técnicas como espectroscopia de infravermelho/UV, reação química, difração de raio-X e cromatografia para identificar o IFA
  3. Teor : quantificação do IFA, exigindo método específico e indicativo de estabilidade nos estudos de estabilidade
  4. Impurezas : avaliação de impurezas orgânicas, inorgânicas, produtos de degradação, solventes residuais, impurezas elementares e impurezas relacionadas ao adesivo (monômeros residuais), com justificativa para os limites

Ensaios específicos (semissólidos e transdérmicos)

A lista de ensaios específicos é extensa e exemplificativa cabe à empresa definir quais se aplicam ao seu produto com base em racional técnico:

  • Uniformidade de dose unitária para formas farmacêuticas de dose única e adesivos transdérmicos
  • Conteúdo de água — quando crítico para estabilidade microbiológica, física e química
  • Limite microbiano — monitoramento de contaminação em produtos não estéreis
  • Conteúdo de antioxidantes e conservantes — baseado nos níveis mínimos necessários
  • Eficácia do sistema conservante — desafio do agente conservante na formulação
  • Esterilidade — para produtos aplicados em feridas abertas ou áreas queimadas
  • pH — influencia ionização do fármaco, eficácia de conservantes e estabilidade da emulsão
  • Caracterização de partícula/gotícula — tamanho, aparência, forma e agregação
  • Formação de cristais — avaliação microscópica durante o prazo de validade
  • Polimorfismo — quando o estado sólido do fármaco é atributo crítico
  • Propriedades reológicas — não basta viscosidade pontual; a curva de viscosidade vs. taxa de cisalhamento oferece caracterização mais completa
  • Uniformidade em recipiente — controle de separação de fase e cristalização no produto embalado
  • Extraíveis e lixiviáveis — interação entre formulação e material de embalagem

Ensaios específicos para adesivos transdérmicos

Para adesivos transdérmicos, o guia adiciona seis ensaios focados nas propriedades adesivas:

  • Remoção da película de proteção (release liner peel test)
  • Adesão à superfície (peel adhesion test)
  • Adesão imediata (tack test)
  • Resistência ao fluxo (shear test) — avalia propriedade coesiva
  • Migração adesiva (cold flow) — pode ser qualitativa ou quantitativa
  • Teste de vazamento (leak test) — para adesivos tipo reservatório, com tolerância zero

Desempenho in vitro (IVRT/IVPT): como implementar na prática

A análise de desempenho in vitro é um dos pontos mais importantes do Guia 20/2019. Ela pode ser realizada por meio de estudo de liberação (IVRT — In Vitro Release Testing) ou estudo de permeação (IVPT — In Vitro Permeation Testing), dependendo do tipo de produto, via de administração e local de ação.

Estudo de liberação (IVRT)

O estudo de liberação mede a atividade termodinâmica do fármaco suficiente para que ele seja liberado da formulação para o estrato córneo. Características principais:

  • Membrana inerte e sintética (silicone, policarbonato, celulose)
  • Realizado em câmaras de difusão ou aparatos assemelhados aos de dissolução
  • Aplicável durante desenvolvimento, controle de mudanças, reprodutibilidade lote a lote e estudos de estabilidade
  • Para medicamentos cópia: comparação de desempenho frente ao medicamento de referência

Estudo de permeação (IVPT)

O estudo de permeação estima a penetração do fármaco no estrato córneo e sua permeação pelas camadas da epiderme e derme. Características principais:

  • Membrana de pele humana ou de outros mamíferos (em casos específicos, membranas sintéticas que mimetizem a barreira cutânea)
  • Realizado em câmaras de difusão
  • Preconizado durante o desenvolvimento e para comparação entre medicamento cópia e referência
  • Aplicável no controle de mudanças durante o ciclo de vida

Parâmetros que devem ser justificados

Tanto para IVRT quanto para IVPT, a documentação deve apresentar o desenvolvimento do método com justificativa para:

  • Membrana selecionada (incluindo teste de integridade)
  • Meio receptor e sua temperatura
  • Quantidade de amostra e número de réplicas
  • Necessidade de oclusão
  • Tempo de coleta
  • Equipamento e velocidade de agitação
  • Solubilidade e estabilidade do IFA no meio receptor
  • Poder discriminativo do método
  • Modelo estatístico adotado

A ausência de análise de desempenho in vitro deve ser justificada tecnicamente, com correlação direta aos atributos de qualidade e parâmetros de processo avaliados.

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Erros comuns no atendimento ao Guia 20/2019

  1. Subestimar a avaliação comparativa de composição — Para genéricos e similares, não basta ter a mesma composição qualitativa. É necessário demonstrar proximidade quantitativa e microestrutural com o produto de referência, incluindo o arranjo estrutural formado pelos excipientes.
  2. Encarar a viscosidade pontual como controle reológico suficiente — O guia é claro: um ensaio pontual de viscosidade pode não permitir avaliação adequada. É necessário apresentar a curva de viscosidade vs. taxa de cisalhamento e considerar o comportamento reológico em repouso e durante a aplicação.
  3. Não justificar a ausência de ensaios de desempenho in vitro — Muitas empresas omitem o IVRT/IVPT sem justificativa técnica robusta. O guia exige que a ausência seja justificada e correlacionada com atributos de qualidade e parâmetros de processo.
  4. Ignorar extraíveis e lixiviáveis — A interação entre formulação e material de embalagem pode representar risco ao paciente e incompatibilidade ao produto. A depender do caso, essa análise é essencial e não pode ser omitida.
  5. Desconsiderar a formação de cristais durante o prazo de validade — O fármaco previamente dissolvido pode cristalizar dependendo da formulação e condições de armazenamento. O produto deve ser avaliado microscopicamente, inclusive durante a vida útil.

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Para o atendimento aos requisitos do Guia 20/2019, oferecemos suporte completo em:

  • Estudo de deformulação do produto de referência/comparador — análise detalhada para identificar e quantificar componentes e características físico-químicas
  • Estudos de liberação in vitro (IVRT) e permeação cutânea (IVPT) — desenvolvimento de método, validação e documentação técnica completa
  • Caracterização de polimorfismo — quando o estado sólido do fármaco é atributo crítico
  • Validação de metodologias analíticas para IFA e produto acabado, in loco no seu laboratório
  • Avaliação de impurezas conforme ICH Q3A/Q3B, RDC 964/2025 e Guia 83/2025
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Perguntas frequentes (FAQ)

1. O Guia 20/2019 é obrigatório? Não. O guia é um instrumento regulatório não normativo, de caráter recomendatório e não vinculante. É possível usar abordagens alternativas, desde que compatíveis com os requisitos exigidos pela legislação. A inobservância ao conteúdo não caracteriza infração sanitária, mas o guia expressa o entendimento da Anvisa sobre as melhores práticas.

2. O Guia 20/2019 se aplica a quais produtos? Aplica-se a medicamentos tópicos semissólidos (cremes, géis, pomadas, pastas) destinados à aplicação externa na pele ou mucosas, e a adesivos transdérmicos. O conteúdo pode ser aplicável a outras formas farmacêuticas e vias de administração a depender do caso.

3. Qual a diferença entre estudo de liberação (IVRT) e estudo de permeação (IVPT)? O IVRT mede a liberação do fármaco da formulação para o estrato córneo, usando membrana inerte e sintética. O IVPT estima a permeação do fármaco através das camadas da epiderme e derme, usando membrana de pele humana ou animal. Ambos são realizados em câmaras de difusão.

4. Para genéricos e similares, o que muda no atendimento ao guia? É necessária avaliação comparativa da composição (qualitativa, quantitativa e microestrutural) entre o medicamento cópia e o de referência. Para adesivos transdérmicos, também são exigidas comparações de concentração do fármaco no adesivo, taxa de liberação, quantidade absorvida e residual.

5. Quando o estudo de desempenho in vitro pode ser omitido? A ausência deve ser justificada tecnicamente e correlacionada com os atributos de qualidade e parâmetros de processo avaliados. Sem essa justificativa robusta, a omissão pode comprometer a avaliação da documentação pela Anvisa.


Conclusão

O Guia 20/2019 da Anvisa é a referência técnica mais importante para quem desenvolve, produz ou registra medicamentos tópicos e transdérmicos no Brasil. Embora não seja vinculante, ele expressa o entendimento da Agência sobre os requisitos mínimos de qualidade — e ignorar suas orientações é assumir riscos desnecessários no processo de registro e pós-registro.

Os pontos centrais que você precisa ter em mente: a composição deve ser justificada com proximidade microestrutural ao produto de referência; o processo produtivo precisa ter pontos críticos mapeados; os ensaios de qualidade vão muito além dos universais (reologia, cristais, extraíveis); e o desempenho in vitro (IVRT/IVPT) é ferramenta estratégica para desenvolvimento, controle de mudanças e estabilidade.

Não deixe a complexidade regulatória comprometer o cronograma do seu produto. A i9 Soluções Analíticas tem a expertise técnica para estruturar toda a documentação de qualidade exigida pelo Guia 20/2019 — desde a deformulação do comparador até os estudos de liberação e permeação in vitro. Fale agora com nossos especialistas no WhatsApp ou solicite uma consultoria para garantir que seu projeto atenda aos mais altos padrões da Anvisa.

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